15 anos. Sempre soube o que queria ser, fosse o que fosse. Professora, veterinária, astrônoma, florista, psicóloga, advogada, jornalista. E agora, quando o que eu mais quero é alguma, e qualquer, certeza, eu simplesmente não sei o que quero ser. Não sei se a causa disso tudo é a "idade das dúvidas", a grande quantidade de informações e contradições que chegam ao meu conhecimento, ou o excesso de obrigações e pressões internas. O que fazer diante de tantas questões? Procurei ajuda materna, como sempre. Conversa vai, conversa vem, consegui uma psicóloga que faz testes vocacionais em grupo.
Neste exato momento, estou esperando o possível acontecimento deste projeto. Ontem à noite, ao me deitar, senti a presença inquieta da insônia. Levante rapidamente, Fui até a cozinha, coei o chá de camomila e erva-cidreira já preparado, e coloquei meu calmante natural e materno em uma caneca térmica para poder voltar para a cama. O que fazer enquanto tomo o chá? Pensei. Ler. Conclui. Abri meu delicioso Leite Derramado. Encarei a relidade: já estava meio tarde para pegar o fio da meada do livro e, quando isso acontecesse, eu me encontraria entretida com o livro do Chico Buarque, e com mais insônia. Então o meu, secretamente preferido, livro de crônicas percebeu meu tédio e piscou para mim. Juro, aquele livro, não de um vermelho qualquer, e sim um vermelho o qual me arrisco dizendo ser o misterioso terra cota (como aprendi quando criança), me chamou com uma voz de avô que tem uma deliciosa história para contar, e mandou-me uma piscadela.
Li uma crônica, terminei meu chá e olhei para meu quarto, iluminado por um abajour atrás de minha cama, formando uma penumbra acolhedora. Coloquei o livro na minha cabeceira, junto com mais um amontoado de semelhantes. Olhei minha caneca de chá, meus livros, meu abajour, aquela sensação acolhedora. Decidi. Seja o que eu for, quero ser com toda certeza, eternamente leitora.