Ninguém tem noção do quanto eu quero ser dramática e triste nesse texto, mas simplesmente não posso, por causa do choro incontrolável. A verdade é: estou num inferno pessoal ''formado por você mesma'' - expressão adotada pelas únicas três pessoas que falam português comigo nos últimos três dias, as quais estão me deixando louca: minha família - continuando, dizem que sou eu que estou formando esse inferno. Estou formulando a teoria de que além da saudade, do frio, da amidalite, e de estar cansada dos meus pais, eu me iludi muito com a Europa. Aliás, me iludi não, estava mal informada. O frio - que eu achava amar - é simplesmente insuportável; a Europa - onde eu queria passar minha Lua de Mel - é cheia de lixo, pessoas grosseiras, só tem coisas velhas e caras, na essência. Fica dif[ícil querer expressar tudo o que eu tenho pensado e sentindo, sem poder ser trágica e dramática, estou tentando me ater ao ironismo. Eu AMO meu país. Simplesmente tudo nele. O clima que pode, ou armar meu cabelo com a umidade do inverno, ou me fazer soar - mesmo tendo displasia ectodérmica. Fiz uma promessa de aprender o hino brasileiro inteiro. Tinha prometido isso com a condição de que o tempo que me resta neste inferno de inverno, passe logo, e que quando eu voltar para o paraíso tropical, tudo esteja como eu deixei. Comecei a achar minha promessa simplesmente muito ambiciosa, e agora estou pensando em mudar minha promessa: Aprenderei e cantarei, mentalmente ou em bom tom, todos os dias o hino nacional, desde que eu volte para o Brasil. Estou pagando todos os meus pecados. Pelo menos isso tudo fica, pelo menos, muito mais dramático, sendo em lugares famosos e românticos. Aprenderei e cantarei, mentalmente ou em bom tom, todos os dias o hino nacional, desde que eu não seja enterrada em Paris, durante os dias que me restam no inferno de inverno. Meu Deus, me desculpe, do fundo do meu coração, por eu estar aparentando não dar valor ao esforço dos meus pais e seus cuidados, ao dinheiro gasto, à viagem, e à essa oportunidade que todos queriam ter, mas acredite, eu estou valorizando MINHA VIDA. Meu país, minha rotina, meu amor, meus amigos. Estou pagando todos os meus pecados, e aprendendo a dar valor a tudo que eu nunca dei. Sei que a promessa que eu realmente deveria fazer, é prometer que, se eu voltar para o Brasil e curar minha amidalite, eu vou dar valor, TODOS OS DIAS, para a minha vida, minha família, meus amigos, meu país e minha rotina. Mas sei que seria muito difícil cumprir essa promessa, pior do que aqueles loucos que prometem ficar 10 anos sem comer chocolate nem tomar refrigerante. Então, prometo tentar, COM TODAS AS MINHAS FORÇAS, a dar esse valor inestimável à tudo que foi citado. E ao mesmo tempo, tentarei deixar meu ciúmes, minha adoração de dependência por controle, minha insegurança e meus medos do futuro, de lado. Posso afirmar, secretamente, que foram os maiores motivos da minha doença. Preciso deixar tudo nas mãos de Deus, do destino, da vida, ou do que for, mas preciso me acostumar com a ideia de que ninguém - que eu AME - nunca conseguirá me dar a segurança que eu preciso, nem a confiança que eu quero. Todas as pessoas que me proporcionaram isso, na minha vida, eu simplesmente não gostava, não era delas que eu precisava. Acho que, agora, entendo o por quê. Porque EU preciso aprender a ser segura e confiante em relação à mim mesma. Enfim, por hoje é isso que eu consigo falar, já quase chorando. Amanhã eu provavelmente digitarei mais.