segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Interpretação 2

            Buzinas e termos de baixo calão: é o que se escuta no trânsito de São Paulo. Inacreditavelmente, desde pequena eu adoro congestionamentos. Com o tempo, aprendi a não perguntar o motivo de tanto estresse dentro do carro para os meus pais, pois sempre ouvia: "Você não está vendo esse inferno de cidade caótica? Esse congestionamento infinito?!" Tudo aos berros, logicamente.
            Tenho minha teoria. Paulistana de paixão e com muito orgulho - Paulistana "da gema" - acredito que o intenso tráfego de automóveis é um descanso mal interpretado que a nossa maravilhosa cidade nos proporciona. Com o inevitável excesso de automóveis, o tempo em que passamos no carro, sem fazermos nada, é um escape de todo o suposto estresse da vida urbana. Como se São Paulo dissesse: "Vocês não falam que não têm tempo para nada? Pois bem... Ouçam boa música, observem a cidade, conversem com a pessoa ao seu lado e, principalmente, pensem na vida. Aliás, nas coisas boas da vida". Afinal, você já está no trânsito e já vai se atrasar, não é? Então ao menos faça esse atraso ser produtivo. E, além disso, o trânsito paulistano nunca é surpresa; é uma rotina. Quem sabe eu tenha essa posição por, por enquanto, ser sempre a passageira.
      Os problemas do trânsito? Culpo todo esse estresse convencionado apropriado durante um congestionamento. Mas reconheço que, por trás disso tudo deve haver uma etiqueta no trânsito. Os mandamentos do pedestre: olharás para os dois lados ao atravessar as ruas e avenidas; não abusarás da bondade dos motoristas; protegerás tua vida; preferirá viver a chegar à tempo. Os mandamentos dos motoristas: serás paciente e respeitoso com pedestres e motoristas; não se exaltarás; serás educado. 
            Mais do que isso, acredito que é um problema cultural. Aprovaram-se leis que colocam os pedestres acima de tudo, como em países de primeiro mundo. Mas esqueceu-se que nesses países a população foi culturalmente criada respeitando fielmente a sinalização. Meu pai conta-me histórias de quando meu tio foi ao Japão: "Ele estava na faixa de pedestre com um amigo, pronto para atravessar a rua. Apesar de o foral estar fechado para ele e aberto para os carros, ele via nitidamente que nenhum carro se aproximava e atravessou. Seu amigo, nascido e criado no país em questão, não atravessou: esperou o farol fechar. Um pouco depois de o seu tio atravessar a rua, um carro passou, e o amigo de seu tio pediu desculpas para o motorista, pelo seu colega não ter-lo respeitado." Não acho que seja missão impossível aqui no Brasil, mas acredito que deve haver um processo de reeducação que adapte o povo brasileiro ao sistema de trânsito desejado.  Além disso, acredito que as ruas do Japão são muito melhores construídas e conservadas do que as do Brasil, facilitando o cumprimento de bons modos, mostrando um déficit governamental e, novamente, cultural.
            Portanto, acredito que o mínimo de educação e bom senso, são necessários. Assim como o reconhecimento da atual mentalidade e cultura brasileira. Mas, sem abandonar a minha teoria, quem sabe se alguns motoristas conseguissem pensar como eu, São Paulo seria bem menos "caótica".