Reparei em algo, ontem. Aliás, em dois fatos. Ambos bobamente extraordinárias. Ou não tão extraordinários assim. Primeiro fato e, sim, menos importante - ou não -: todos olham, poucos vêem. Ando olhando para o chão e quando não tenho problemas, ou meus problemas são grandes demais, acabando vendo a sombra das árvores. As minhas preferidas são as altas com folhas pequenas. Pode-se ver cada folhinha no chão, cercada por um mundo de amarelo, isto é, quando está Sol. Acho magnífico conseguir ver isso. Ver algo que é olhado o tempo todo. O segundo fato é: chuva é horrível, mas tempo nublado é bem pior. Como? Óbvio? Chuva é algo escancaradamente temporário, a certeza de que irá passar é certa. Talvez só pra mim, pensando que não pode haver água infinita no céu. Enfim, céu nublado não. As nuvens não se movem, o céu parece triste, e isso não gasta nada, nem nuvens nem tristeza. Com esse tempo, imagino toda a Terra cercada por uma nuvem gigante, como se todos os lugares estivesse nublados, e, para sempre. Reparei em coisas que sempre reparo, mas de um jeito mais específico; em palavras, e não só em devaneios. Talvez isso, da chuva, também possa ser aplicado com as lágrimas. Mais vale alguém chorando que alguém desanimado. Mas mais que pela chuva; o choro é emocionante, significante, concluinte, humano e independente. Sempre passa, alivia, melhora e dissolve. O desânimo pode ser até característica, defeito. Se depois do desânimo não vier o choro, e passar sozinho, é sofrimento, na certa. Hm? Isso mesmo, choro não é sofrimento, está longe de ser, pelo menos para mim. Sofrimento é estar tão desanimado a ponto de não consguir chorar. Escrevi, escrevi, e não cheguei a lugar nenhum, ou melhor, ao ponto final. A verdade é, enrolei para tentar não falar o que realmente quero, admitir que estou errada. Pior que admitir o erro, é admiti-lo depois de sua mãe o avisá-lo. Me entrego demais, me jogo, não penso. Flutuo - no começo - mas logo caio, me empurram, acordo. Sempre acontece. Talvez por ter visto muitos contos de fadas na infância, muita novela na adolescência, e ter tido muitos sonhos a vida toda. A questão é, sempre que eu me entrego, não tem nada para me segurar. Não é uma decepção, é uma verdade que chega subordinada ao tempo. Tempo, odeio isso. É o que acaba com tudo, em todos os sentidos. Se o tempo está ruim, acabou o passeio. Se o tempo demora-se a passar, fica chato. Se o tempo é curto, não dá tempo. Se o tempo passa rápido, não dá-se o valor. Se o tempo é longo, entedia-se. Se o tempo acaba, já é tarde. Se ainda há tempo, protela-se. Se sempre há tempo, junto vem sofrimento. Se nunca houve tempo, não houve vida. (Ponto final)