Narrarei os fatos que ontem se passaram. Estava frustrada, viagem chegando, nada ansiosa para a partida, e sim para o retorno (sem mesmo ter ido), para ter certeza que tudo continuará do jeito que eu deixei. Como melhorar a situação? Perguntei para mim mesma. Como se eu imaginasse que conseguiria responder, coisa inédita. Eram três e meia da manhã, e o medo da viagem me invadindo. Da viagem não, do futuro. Fui tomar banho para dormir. Não precisava lavar o cabelo, afinal no dia seguinte não sairia, e no outro iria ao cabeleireiro. No armário abaixo da pia, achei o tesouro. O shampoo comprado há meses, mas nunca usado. Por quê? Porque na embalagem do produto em questão, não há a seguinte informação: *Sem adição de sal (cloreto de sódio). Acontece que a química usada para melhorar a situação do meu cabelo, fruto da união da raça japonesa com a brasileira (quando digo raça brasileira, é porque não sei se a família do meu pai descende de índios ou escravos), não permite a presença de Sal no Shampoo. A popular "escova progressiva" é quem me mantém sã, não precisando enlouquecer com a umidade., uma das minhas melhores amigas, tal escova, para ser sincera. Não me envergonho disso, de jeito nenhum. Até porque, demorei tanto tempo para me encontrar satisfeita em relação às minhas madeixas, e agora tenho orgulho de dizer como cheguei à tal satisfação. Enfim, isso não vem ao caso. A questão é: percebi que ficaria satisfeita ao usar tal Shampoo. A segunda questão é: isso seria um crime. Um crime ao meu cabelo. Não me julguem e criem um conceito de fútil, se soubessem como meu cabelo era durante a infância, entenderiam meu caso. Acabei lembrando que dois dias depois, voltaria para o cabeleireiro: retoque do milagre. Então, que mal faria um pouco de sal? "Minha pressão é baixa mesmo", tentei jogar a situação ao meu favor, sadicamente, é claro. Durante toda a minha viagem anterior e posterior, foram e serão usados apenas shampoo com sal, que são os mais comuns. O problema, pensei, não é o meu cabelo, é mais minha consciência. Em vezes anteriores que usei Shampoo com sal em casa, assim que a rebeldia de meu cabelo voltava à tona, lembrava das puladas de cerca. Enfim, tirei o shampoo e o condicionar da caixa, escondi a mesma embaixo do armário, e tomei um delicioso banho. Meu cabelo ficou do mesmo jeito que sempre, o tal shampoo, não fez milagres. Era tudo da minha cabeça: o fruto proibido. Moral? Meu cabelo bom ou ruim, tinha passado pelo processo que há tampo tempo eu desejava e adiava. E nisso, esqueci do futuro que me amedrontava, e só consegui pensar no futuro mais próximo: o retoque da progressiva.