E eu odeio ser assim, inquieta. Sei os momentos em que a felicidade deveria invadir-me, mas são neles em que o vazio me preenche. Já falei disso tantas vezes, em livros, cadernos, na minha mente. Essa inquietação, uma ampulheta sem fim. Lembro-me da infância, tinha uma ampulheta; na verdade, minha irmã a possuía. Pegava-lhe a ampulheta e, escondida, passava a observar, esperando anciosamente ao término do tempo. Não sabia quanto tempo era aquilo, nem em minutos nem em segundos, mas toda vez que me punha a apenas observar o objeto, aquele tempo parecia-me horas. Infinitas horas, como agora, inquieta. Sei que tudo está bem, tudo está perfeitamente bem. Mas aqui dentro, não sei bem aonde, mas no lugar em que só eu sinto e sei da existência desse vazio, a felicidade não me chega. Vazio esse, criado por mim mesma, modo de me sentir, de certo modo, completa; não sei expressar isso em palavras, mas acho que simples e basicamente, criei esse vazio para sentir a emoção dos momentos em que ele é preenchido, o que é muito melhor do que ser simplismente feliz, é ser completamente feliz, até nesse lugar que as vezes cria vida e angústia. O que me conforta, é a certeza de que é momentâneo; de que logo - por mais que agora, pareçam-me horas - não saberei o que isso tudo quis dizer ou me fez sentir; é a convicta certeza de que tudo isso não passará de uma lembrança e, enfim, toda a esperada felicidade me invadirá. Mas o que, simultanea e sadicamente, me entristece, é que, aos 6 anos, quando preparava a ampulheta para calcular um tempo destinado à alguma atividade - sem ser observar o esgotamento da areia - o que antes eram horas, viravam segundos, muito pouco tempo reservado para a atividade; a ampulheta ficava pequena. E como algo relativa e diretamente proporcional, assim é na inquietude. Os momentos de felicidade e êxtase passam rápido, e talvez seja isso que os faz mágicos, a rapidez com que passam, me levando a dar mais e mais valor aos instantes em que consigo me sentir, enfim, completa e realmente feliz.