quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Indefinível

Rotina: palavra que descreve minha vida. No dia em que esse fato, ou melhor, essa percepção, se passou, eu estava, como sempre, seguindo minha rotina à risca. No meu dia-a-dia paulistano, o lugar em que menos passo meu tempo e, porém, mais presto atenção nos acontecimentos, é no metrô. Talvez pela circulação heterogênea, não sei ao certo, mas o metrô sempre consegue chamar minha atenção.

Neste dia, em minha costumeira viagem de metrô para a escola, recordei um tema para crônica comentado pela minha professora. Não lembrava ao certo porque ela tocara no assunto, se deveríamos fazer um dever, ou se era algo facultativo. O tema era: O Lugar Onde Vivo. Percebi que era um tema extremamente difícil, afinal, o que isso quer dizer? Tentei chegar a uma conclusão sobre o tema, em meio ao meu tédio no metrô. Com o passar das estações e com o barulho habitual dos vagões sobre os trilhos e das conversas paralelas, me distraí e minha atenção ficou presa nos acontecimentos ao meu redor.

Sentada à janela, pude ver uma mulher "estacionada" na porta. Aparentava cansaço e desgosto. Tinha um ar debochado de quem sabia que estava atrapalhando a circulação, mas não ligava, já tinha seus problemas. Também notei, a três ou quatro janelas de distância da minha, uma senhora entre 60 e 65 anos em pé, enquanto um jovem adormecido, em sua frente, usava um assento reservado para pessoas idosas. O jovem não só parecia, como deixava claro que fingia dormir, já que mastigava seu chiclete enquanto sonhava. Indignada e sem poder fazer muita coisa por não querer me meter nas escolhas da mulher, e por estar longe da senhora para oferecer-lhe o meu lugar, tentei distrair-me olhando pela janela, de onde via a plataforma. Vi, então, pessoas ocupando o lado esquerdo das escadas, impedindo os atrasados de chegar a tempo ao seus destino. Era como se as coisas erradas estivessem me perseguindo, ou eu é que começara a prestar atenção.

Durante essa viagem, devo admitir, também vi cenas amigáveis: Pessoas dando passagem, cedendo lugares, dando sorrisos para desconhecidos; cenas com uma freqüência muito menor do que atos egoístas. Pensando nas pessoas em que percebi feitos errados, fiquei ainda mais indignada ao concluir que essas mesmas pessoas, além de, provavelmente, agirem egocentricamente todos os dias, quando estão atrasadas e cansadas, reclamam de atos como os praticados por elas nesse mesmo dia.

Vendo que meu destino se aproximava, voltei a pensar na escola e, conseqüentemente, em minha crônica. Olhei à minha volta, revi algumas das pessoas nas quais prendi minha atenção. O lugar onde vivo, é, em si, uma ampliação dos lugares onde passamos nosso dia a dia: metrô, escola, trabalho, trânsito, casa, seja onde for. O lugar onde vivemos é o reflexo dos nossos atos quando pensamos (ou não) no próximo.